sábado, 18 de março de 2017

Refletindo sobre o cuidado de enfermagem em Unidade de Terapia Intensiva

A Unidade de Terapia Intensiva surgiu da necessidade de aperfeiçoamento material e humano para o atendimento a pacientes críticos, e é considerada como um dos ambientes mais agressivos e tensos do hospital. Esses fatores não atingem apenas o paciente, mas também a equipe de enfermagem que presta cuidados intensivos nas 24 horas. Caracterizam-se como ambientes tensos, locais onde a morte é uma constante, os sentidos estão sempre aguçados e alertas para qualquer intercorrência, de sono privado, de ruídos excessivos, de invasão de privacidade, do grande fluxo de profissionais, da quase exclusão dos familiares, da pouca comunicação, de cabos e fios intermináveis, monitores e seus sonoros “bips”.
Na década de 1960, houve um rápido crescimento de unidades de cuidados intensivos em hospitais gerais e com esse crescimento vieram o desenvolvimento de tecnologias e o aumento da disponibilidade de aparelhos para medir, monitorar e regular os sistemas orgânicos, o que tornou os cuidados intensivos potencialmente mais amedrontadores, mais solitários, confusos e desumanizantes. Afirmam também que o paciente internado em uma Unidade de Terapia Intensiva necessita de cuidados de excelência dirigidos não apenas para os problemas fisiopatológicos, mas também para questões psicossociais, ambientais e familiares, que se tornam intimamente interligadas à doença física.
[...] O doente que já está à margem da vida da comunidade, da atividade profissional e da vida de família, sofre a dor física, o medo da morte, inquietude pelos entes queridos, preocupação pelo futuro, sentimentos de inferioridade.
A estrutura das UTIs cada vez mais burocratizada e despersonalizada deixa os pacientes à mercê de estranhos cujas funções e papéis desconhecem, de aparelhos e testes de rotina desconectados de seus hábitos, tornando-o somente um paciente a mais, outra patologia, outro prontuário, descartando sua identidade para tornar-se um paciente. Os resultados de pesquisas têm demonstrado que a má utilização dos recursos tecnológicos e a falta de compromisso de alguns profissionais têm tornado mecanicista a assistência, ou seja, têm afastado o cliente (paciente e família) da equipe multiprofissional, descaracterizando o cuidado como ação humana.
Em geral, o processo de cuidar torna-se frustrante, sobretudo por causa das dificuldades decorrentes das condições de trabalho. O que se observa é que, ante a escassez de recursos materiais e humanos, os profissionais acabam fazendo o melhor que podem, mas isso não é o suficiente e culmina em prejuízo para a qualidade do cuidar.
Sabe-se que nem sempre é possível proporcionar o melhor atendimento. Uma boa estrutura de UTI envolve: pessoal em número suficiente e treinado para fornecer assistência específica e observação contínua, planta física elaborada com equipamentos especiais e manutenção constante e organização administrativa preocupada em manter padrões de assistência e programas de educação continuada.
Em virtude da constante expectativa de situações de emergência, da alta complexidade tecnológica e da concentração de pacientes graves sujeitos a mudanças súbitas no estado geral, o ambiente de trabalho caracteriza-se como estressante e gerador de uma atmosfera emocionalmente comprometida, tanto para os profissionais como para os pacientes e seus familiares.
O serviço de enfermagem sofre o impacto total, de modo imediato e concentrado, das tensões que advêm do cuidado direto dos doentes. Isso ocorre pelo fato de a equipe de enfermagem estar permanentemente em contato com as pessoas que estão fisicamente doentes ou lesadas, compreendendo que o restabelecimento dos pacientes não é certo e nem sempre será completo. Algumas enfermeiras relatam que a instabilidade do quadro clínico dos pacientes é um dos fatores geradores de grande tensão, pois impõe um ritmo de trabalho desordenado, uma vez que a qualquer momento pode ocorrer uma intercorrência. No atendimento a essas intercorrências, as enfermeiras são responsáveis pela organização de toda a infra-estrutura, recursos materiais, equipamentos e recursos humanos treinados para prestar o atendimento. Além disso, a atuação nesses atendimentos exige grande controle emocional que inclui ser continente às tensões da equipe médica e de enfermagem. Como conseqüência, essas trabalhadoras, para evitarem a perda de controle, os sentimentos de culpa e a punição, tornam-se vigilantes de si mesmas, controladoras atentas às conseqüências de seus atos e experimentam, inconscientemente, o temor pelas conseqüências de uma atitude desatenta.
A rotina de trabalho para grande parte dos profissionais se mostra insatisfatória e até frustrante, ocorrendo uma lacuna em relação aos papéis mal definidos entre a equipe de enfermagem, deixando a desejar as potencialidades de cada profissional. O que vemos, especificamente na realidade, é que a enfermagem não cuida e sim presta ações e procedimentos, tendo sua prática centrada em tarefas, afastando-se do paciente para desempenhar funções administrativas, delegando o ato de cuidar a outros membros da equipe.
O enfermeiro, na equipe multidisciplinar, continua sendo visto como mero cumpridor de tarefas, ficando muitas vezes aquém de outros profissionais no que tange à autonomia e ao conhecimento científicos, dada a falta de incentivo e sobrecarga de trabalho.
Acrescentam-se a todos esses fatores as freqüentes queixas das enfermeiras quanto a sua não-valorização pelos pacientes, familiares, equipe multidisciplinar e freqüentemente pelos dirigentes das instituições, traduzidas nas condições concretas de trabalho oferecidas a esse grupo profissional em geral.8
Portanto, estarão os trabalhadores da saúde em condições de garantir um atendimento mais humano e digno, visto que, quase sempre, são submetidos a processos de trabalhos mecanizados impedindo que se transformem em pessoas mais críticas e sensíveis, fragilizando-os ao conviver continuamente com a dor, o sofrimento e a morte?
Concordamos que é emergencial a promoção de estudos e trabalhos que tragam à reflexão essas questões pouco expressas pelas pesquisas, mas que são vivenciadas em profundidade no cotidiano, e acrescentamos que cuidar numa UTI é, sobretudo, tornar efetiva a assistência ao indivíduo criticamente doente e este cuidado estende-se, além do paciente, à família, à equipe multiprofissional e ao ambiente.

 REVISTA MINEIRA DE ENFERMAGEM
Autor: Gisele Ferreira da Silva


MICHELLE KELLY SOARES DA SILVA - MATRICULA 03010882

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